GUINGA, UM COMPANHEIRO DE VIAGEM
Vinícius Lacerda


Lembranças marcantes acentuam trajetória do violonista brasileiro no exterior
Passos lentos e mochila nas costas. Assim Carlos Althier de Souza Lemos Escobar chega ao lobby do hotel para começarmos esta entrevista. Uma conversa que, mal sabia, me faria dar uma volta ao mundo.
Guinga, como é internacionalmente conhecido, é um músico de longa trajetória, que começou no Festival Internacional da Canção de 1967, o mesmo que reconheceu o talento de Milton Nascimento. Trilhando uma sólida carreira como violonista, ele não para de viajar, apresentando-se em diferentes países. Só na Itália já esteve 37 vezes.
Tantas visitas o tornam um profundo conhecedor do país e um apreciador da culinária italiana. Para falar qual o seu prato predileto, ele precisa pensar. Parece não querer ser injusto consigo mesmo ou com a rica gastronomia italiana. Depois de um tempo vem a resposta: macarrão a carbonara: “é como se fosse o arroz com feijão para o brasileiro, comum, mas delicioso”, justifica a escolha.
Entre outros países, já esteve na Inglaterra, Dinamarca, Suíça, Espanha, França, Tunísia, Estados Unidos, Canadá, Panamá, Cuba e Argentina, sempre a trabalho, como gosta de frisar. “Nunca viajei a turismo”, reafirma com veemência esse artista que durante 28 anos exerceu a profissão de dentista sem nunca deixar de lado o amor pela música.
Guinga gosta de pensar antes de falar. Cada uma de suas respostas demora um tempo para ser processada. Assim, devagar, se lembra dos lugares que já visitou. “Em julho de 2008, fui à Itália e rodei 1.000 km para realizar shows por todo o país.” O percurso valeu a pena, pois permitiu vislumbrar as distintas e belas paisagens italianas.
“Para mim, Roma é a cidade que, mesmo que você já tenha estado lá inúmeras vezes, sempre vale a pena ser visitada e revisitada. Ali se encontra uma surpresa em cada quarteirão.” E Guinga tece considerações sobre o metrô da capital italiana que vive parando suas obras, pois sempre se descobre algum artefato histórico em meio às escavações.

O nascer do sol em Porto Venere, um dos lugares preferidos do violonista Guinga
Se ele trocasse suas viagens a trabalho por umas boas férias, para onde iria? O silêncio novamente mostra que ele está viajando para bem longe. “Porto Venere! Um dos lugares mais lindos que já conheci. Um golfo que desemboca no mediterrâneio e onde o mar bate com toda violência, formando ondas que jogam suas espumas a metros e metros de altura. Um cenário maravilhoso.”

O violonista Guinga em uma de suas viagens à Itália
E não demora muito para outros lugares transformarem nossa conversa numa encruzilhada de paisagens. Guinga faz elogios à beleza de San Francisco, na Califórnia, e ao sul da Argentina, onde teve uma experiência quase divina – “era madrugada e o céu parecia que ia desabar em cima de mim, fiquei todo arrepiado e comecei a chorar.” Inesquecível também foi presenciar uma chuva de estrelas cadentes nos céus da Espanha.
Inevitável seria saber qual a melhor viagem de Guinga. Desta vez, sem hesitar, respondeu no ato: “a melhor viagem é aquela que faço para dentro de mim mesmo. Quando você viaja, o ideal é enxergar tudo aquilo e jogar para dentro, levar com você.”